Thursday, January 29, 2009

Na Invisibilidade

(É na noite quando pressinto a Humanidade adormecida que deixo os rasgos de imaginação submergir em mim.... Um beijinho para quem gosta de me ler..... Anabela - Borboleta Azul)

Menina Sem Nome de forma invisível senta-se em frente a Menino Humanidade, olhando-o nos olhos… profundamente. Por detrás de um rosto aparentemente sereno, de olhar rasgado e brilhante ela tenta ordenar as ideias. Como começar? Como deixar de ler aquele rosto que também a lê como se fosse um espelho e a distrai do seu propósito? Menina Sem Nome liberta um sorriso doce e meigo.
Olha para as suas mãos… uma esfera de luz minúscula vai crescendo por entre os dedos longos e compridos, suaves, frescos, de toque delicado e inteligente. Menina Sem Nome brinca com a esfera que é um reflexo da bola de luz que transporta ao nível do seu peito, do seu estômago. Ela não sabe como faz aquilo… como nascem aquelas bolas. Apenas sente que depois de um período de sono bem dormido ou um passeio pela natureza, as tem lá, as alimenta. Algo dentro de si sabe que não vale a pena perder tempo em tentar descobrir esse fenómeno… jamais conseguiria unir as peças de puzzle da invisibilidade.

Menino Humanidade… sente um arrepio que não é de frio, uma dormência que lhe abraça o corpo. Ele pressente-a, mas não a vê, pressente-a, mas não sabe que é ela.
Menina Sem Nome continua sorrindo e nascendo como pétala doce nos seus lábios. Ainda se lembra como o conheceu… Foi nas palavras que libertam luz. Fechou os olhos, deixou que as suas pálpebras quentes se abraçassem no pensamento e viu projectado nas suas paredes interiores os quadros de palavras que Menino Humanidade liberta quando lhe escreve: Adoro-te…ou… o teu Menino Humanidade. Como é tão bom…
Menina Sem Nome voltou a abrir os olhos para ver o reflexo daquele mundo físico onde se encontrava de forma invisível. Os seus pés pequenos, apesar de confortavelmente emoldurados pela borracha dos ténis sentiam a vibração daquele edifício… Energia de gente apressada escorria pelas paredes, pela secretária, contorcia-se no ar.
Menina Sem Nome dirigiu-se para a janela… O seu olhar abraçou também uma multidão que corria apressada… se atropelava… Um universo de mundos cinzentos, de umbigos.
Como eram tão frios… brrrrrrr….. Um calafrio percorreu uma viagem desde o seu pescoço encoberto pelo longo e sedoso cabelo macio que caia para os ombros nus deixados a descoberto pela T-Shirt de alças fininhas que insistentemente escorregava pela pele sedosa, o que a distraia. Após algumas tentativas de com a mão esquerda colocar a alça direita no lugar, acabou por desistir.
- Onde estão os sorrisos de toda esta gente? – perguntou.
Com paciência e alguma habilidade dividiu a grande bola de luz com que brincava em suas mãos, em minúsculas bolinhas de energia que foi jogando pela janela. Em cada rosto fechado que uma das bolinhas acertava de forma brincalhona, nascia um belo sorriso. Em poucos minutos a rua movimentada e sombria se transformou numa rua de pessoas doces e amáveis, risonhas de sabedoria e de calor humano. Como estava muito mais bonita agora aquela rua, como brilhava, como resplandecia… Menina Sem Nome teve vontade de abrir asas e voar como um pássaro feliz. Mas não o fez, não o podia fazer… porque não tinha asas, apesar de sentir que se o fizesse voaria… claro que voaria, mas dai a segundos ficaria esborrachada contra o chão… Riu do seu próprio pensamento. Como sou tola! – pensou.

Menina Sem Nome leu o rosto de Menino Humanidade mais uma vez: Naquele momento a mente dele estava algo anestesiada de tão embriagado que estava de trabalho. Sem sua permissão resolveu ver um pouco daquele mundo, desejava profundamente conhecer a sua mente, por isso destapou a fina cortina da mente de Menino Humanidade e através de todo ele, sobrepôs o seu ser invisível no corpo físico que a recebia, sem o magoar, sem se magoar. Fechou os olhos e sem o distrair entrou dentro dele, profundamente… Sentiu o calor do seu corpo, o sangue fazendo corrida nas veias, irrigando cada milímetro dos seus órgãos, da sua carne, da sua pele. Sentiu o seu cheiro… viu uma luz ao fundo de um túnel… a mente dele.
Menina Sem Nome entrou num jardim. Milhares de neurónios a fixaram.
Não sabia muito bem como reagir, como se movimentar… afinal.. estava num mundo que não era o seu… e um movimento, uma palavra sua poderia alterar algo, dependendo da interpretação daqueles seres. Podiam pensar que tinha vindo para agredir … mas não… apenas viera para consertar, para mimar, para aprender… para dar, para ensinar a sentir, viver.. Tinha muito medo de ser mal interpretada… por isso se manteve em silêncio, por isso ali já não brincava como tanto gostava de fazer. Caminhou no tapete verdejante e macio da mente de Menino Humanidade, sempre atenta. Os minúsculos, mas grandiosos seres afastaram-se para que ela passasse. O olhar tímido de Menina Sem Nome acompanhou-a. O seu olhar fascinado… iluminou o jardim. Escutou uma melodia suave… o som de um piano. Mas quem o tocava? Olhou à sua volta… viu tantas flores: rosas, margaridas, flores silvestres… branquinhas, com um olhinho amarelo…mas não viu um piano, não viu um pianista… sim, descobriu de onde provinha a musica, nada mais, nada menos do que do seu coração. Voltou a sorrir. Como adorava o som do piano… e… da arpa.. Hummmm… tão puro… tão… bom… Sentia estes sons como sendo a super-cola de todas as partículas. Tudo era uno quando a sua mente recebia aqueles sons…
Subiu uma escadaria. Por cada escada que o seu pé pisava uma luz se acendia. Parecia não ter fim o trajecto… mas feliz constatava que aquele jardim interior estava cada vez mais iluminado. Quando no entrecortar da sua respiração sentiu que o coração ia parar de tanto bater viu uma porta. Entrou. Um ser olhava pela janela da sua vida. Tinha a mão no coração, parecendo querer tapar um buraco? O vazio que se tinha instalado? Mas porque? Para onde daria esse buraco? Talvez para outra dimensão…
Era um Rei no seu castelo, mas onde estava o manto? A coroa? O ceptro? Apenas uns ténis, uma T-shirt.. e umas calças de ganga protegiam o seu corpo magro. Menina Sem Nome riu. Cristalina e movida por este seu pensamento soltou a gargalhada que lhe fez cócegas na garganta e trouxeram as lágrimas aos seus olhos cor de Outono, mas que também atraiu a atenção do rei. Era leve e doce, também cristalino de ser, saber e estar.
Menina Sem Nome fixou o rosto do rei e quase sentiu que se estava a ver ao espelho, teve vontade de o abraçar…, mas conteve-se.
Tudo era possível. Não existe limites na mente, mas Menina Sem Nome sabia que aquele Rei era a essência que sustentava Menino Humanidade.
Por momentos sentiu-se ferida. Aquele ser tão bonito… prisioneiro de si próprio..., não gostava de o pressentir assim.
- Mas porque está triste? – insistiu…
Menina Sem Nome lembrou-se da história que Menino Humanidade lhe tinha contado sobre a Fuga do Sonho... e como tinha raptado a Esperança.
Menina Sem Nome revoltou-se impulsivamente: Menino Humanidade tinha permitido a fuga do Sonho?!!!
Impulsivamente, pegou na mão do rei, que em nada o parecia… e em tudo se assemelhava a um homem menino muito atraente e especial… Ambos rasgaram a escadaria em direcção ao exterior.
Menina Sem Nome sorriu, e o rei também sorriu, não sabendo muito bem porque se tinha deixado levar pela mão que apertava a sua e o conduzia deixando ficar para trás o seu palácio. E foi nesse intante que Menina Sem Nome depositou um terno beijo chamado Sonho nos lábios de Menino Humanidade e este voltou a sentir o brilho da Esperança... e voltou a acordar para a magia da Vida.

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